
Teste
– Power Single Ended LAS 572-3 SE
Publicada na Audio
& Video na edição de dezembro de 2003
Por Flávio Adami
Após a análise feita por mim do pré da
Tone Áudio, na edição
passada, estou tendo a oportunidade de testar um outro produto
made in Brasil com muito orgulho. O amigo Salvatore é
uma daquelas figuras que fazem parte da historia do áudio
brasileiro. Mais ou menos na época em que eu, na Quasar,
junto ao Igor Seresnewsky, fazíamos as nossas experiências
acústicas, o Salvatore – com seu conhecimento em
eletrônica – foi um dos fundadores da Gradiente,
que nos traz boas lembranças graças a uma linha
de produtos de qualidade, pois naquele tempo praticamente todos
tinham algum produto da Gradiente, inclusive
eu, que por volta de 1966 comprei o primeiro modelo, um ST-36,
ainda com transistores de saída de germânio, que
sem dúvida tocava muito bem para aquela época.
Gradiente, Quasar, Polivox, Cignus, Tarkus, Lando
e outros deixaram muita saudade de uma época boa. Entretanto,
os tempos hoje são outros. |
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Porém
eu fico feliz por ter amigos como o Eduardo Lima da Áudiopax,
Lando e Gregor da Lando, Jorge Knirsch da By
Knirsch, Cláudio Lameira da AC Organizer,
o Carlos Alberto da Tone Áudio dando, de uma
certa forma, continuidade àquela época romântica,
através de produtos artesanais e um grande know how que muito
nos orgulha, incluindo obviamente o Salvatore, que está aí
voltando em grande estilo através de um produto diferenciado:
o power LAS- 572-3 SE.
Este amplificador utiliza o conceito de monobloco operando na configuração
single ended, em classe A. O estágio de saída utiliza
o novo triodo de potência Svetlana SE-572-3
e tem como característica um ânodo de grafite, filamentos
de tungstênio toriado com uma grande linearidade de placa, baixa
distorção e uma potência de saída de 18
watts.
O transformador de saída foi projetado na Holanda, em núcleo
toroidal e uma técnica especial de enrolamentos entrelaçados,
de forma a garantir uma resposta de freqüência que se estende
dos 20 Hz aos 50 kHz. O projeto deste amplificador foi totalmente
realizado sem realimentação negativa, entretanto foi
utilizado no projeto um pequeno fator de realimentação(-2dB),
para melhorar o fator de amortecimento dos altofalantes. Note-se que
este circuito de realimentação não tem por finalidade
a redução de qualquer tipo de distorção.
O sinal de excitação para a válvula de saída
é obtido através de uma válvula ECC-85
em configuração de seguidor de catodo paralelo e através
de acoplamento direto, evitando-se assim capacitores de acoplamento
neste estágio. O estágio de entrada, uma válvula
ECC-82 de duplo triodo, específico para áudio,
de fabricação Russa, é configurada como um circuito
gerador de corrente em classe A, sendo este o principal estágio
de ganho.
A fonte de alimentação é constituída por
um transformador de grandes dimensões, capacitores “computer
grade”, com múltiplas fontes independentes. Sua principal
fonte de alimentação, com 700 volts para esse modelo,
armazena uma energia superior a 250 joules, não variando essa
tensão mais do que 1 ou 2 volts quando em passagens musicais
variando do pianíssimo ao fortíssimo.
Apesar de todo desenvolvimento dos amplificadores transistorizados
e da volta de uma nova geração de valvulados, cresceu
um imenso interesse pelo power single ended, pelo fato de ter sido
o primeiro amplificador desenvolvido na história, justamente
quando Lee de Forest patenteou a válvula triodo em 1907, e
também o primeiro amplificador usando este sistema em 1912,
com uma potência em torno de 10 watts por canal. Este sistema
de amplificação criou um frissom muito grande entre
os audiófilos, tanto que uma das primeiras válvulas
triodo, a Wester Electric 300B, chegava a custar
em torno de 500 dólares a unidade e isso fez com que a Wester
Electric voltasse novamente a produzir essa válvula
nos anos noventa.
A válvula triodo é o sistema mais simples de amplificação.
São apenas três elementos contra os cinco elementos dos
modernos pentodos. Possui uma potência final mais baixa, porém
uma distorção menor. Basicamente uma válvula
triodo amplifica uma forma de onda completa, enquanto no sistema push
pull, uma válvula ou um transistor amplifica a metade positiva
da onda enquanto a outra amplifica o lado negativo, ou seja, enquanto
uma puxa a outra empurra, por isso são utilizados duas válvulas
ou dois transistores de saída por canal ou mais, nos modernos
amplificadores. A vantagem segundo os projetistas desse conceito tão
antigo, é a inexistência da famosa distorção
de crossover, ou seja, uma descontinuidade no ponto zero quando basicamente
uma válvula ou transistor deixa de empurrar, a outra começar
a puxar.
Mas, como isso é assunto para quem entende mais do que eu de
eletrônica, pois meu negócio é música,
vou tentar passar um pouco da sensação que tive ao ouvir
este amplificador. Uma baixa potência exige de preferência
caixas acústicas de boa eficiência. Duas caixas de diferente
conceito foram utilizadas, ajudando-me a fazer uma avaliação
mais precisa, no caso as Tannoy Saturno 10 e as Triangle
Luna, ambas com 93 dB de eficiência, com certeza muito
indicadas para esse tipo de amplificação.
No primeiro instante de audição, deu para perceber claramente
as virtudes desse amplificador. Extremamente suave, uma zona média
com muita presença, ou seja, a música fluía fácil,
sem o mínimo esforço para que eu percebesse todos os
detalhes, mesmo ouvindo em volume baixo. Apesar de toda a evolução
dos amplificadores transistorizados que hoje, sem dúvida, estão
num patamar de tecnologia muito avançado, sendo eu inclusive
um defensor ferrenho dos modernos projetos a transistor, pela capacidade
de resolução sonora que os modernos Mosfets de última
geração apresentam, pela capacidade de corrente e a
facilidade que eles tem de zombar de qualquer caixa de baixa eficiência
e também de baixa impedância, quando me deparo com um
power dessa característica, remontando um passado longínquo
de quase cem anos, dentro de um conceito que seria quase como voltar
ao cilindro de Thomas Edson, eu penso com meus botões: será
que é isso mesmo? Ou será que ainda existe algo de mágico
dentro desses tubos que nos tornam tão fascinados. Se considerarmos
o espectro de freqüências dentro da zona média,
sem duvida é um amplificador extraordinário e mágico.
As vozes soaram com um calor e uma presença, que saltavam para
fora das caixas, criando uma sensação de apresentação
ao vivo impressionante. Os agudos não soaram com aquela extensão
que estou acostumado a escutar no meu sistema, entretanto tendo como
exemplo pratos de bateria, soaram mais cheios com aquele corpo que
os pratos costumam soar ao vivo sem aquele agudo “fininho”
e irreal, que certos transistorizados apresentam.
As vozes as quais estou acostumado a ouvir nos meus testes, como por
exemplo, Diana Krall, Dianne Reeves, Patrícia Barber, Norah
Jones, Ella Fitzgerald, sem dúvida não me deixaram levantar
para trocar os discos, pois fiquei atônito diante de tamanho
conforto auditivo que meus ouvidos presenciaram. Segundo o Salvatore,
este equipamento ainda está em desenvolvimento e, na minha
opinião, algumas coisas ainda podem ser melhor ajustadas. Notei
os graves em baixa freqüência não muito presentes,
principalmente freqüências em torno dos 30 Hz, ou seja,
as caixas Tannoy que respondem a partir dos 25 Hz,
perderam bastante da força nessa região de graves. Obviamente
não se pode exigir de um amplificador single ended de 18 watts,
graves viscerais de um poderoso amplificador a transistores, porém
alguma coisa precisa ser revista nesse aspecto e com certeza o Salvatore
não terá dificuldades para isso.
Em compensação, a textura da zona média
ao ouvir instrumentos como violino, cello, por exemplo, e o
corpo harmônico de instrumentos como o piano, sax barítono
e contrabaixo, deixaram patente a musicalidade deste equipamento.
O palco sonoro bastante amplo e profundo deixou clara a característica
de presença ao vivo que os valvulados triodo single ended
possuem.
Conclusão
Uma coisa não deixa dúvida: o LAS 572-3
SE produz um som grande, cheio, rico, amplo e pormenorizado,
muito em especial na zona média de freqüências,
que, afinal de contas, são quase 90% daquilo que normalmente
se ouve. Apesar de ter apenas 18 watts por canal, mostrou muito
vigor e presença, principalmente quando utilizados com
caixas de boa eficiência, apesar de os graves não
terem soado com a mesma extensão de um potente transistorizado.
Os agudos soaram bem controlados, limpos e claros sem qualquer
“estridência”, agressividade ou simples exagero.
Um dos grandes momentos de audição durante este
teste foi quando utilizei uma receita gastronômica audiófila
infalível, que eu gostaria de passar para os amigos do
Clube do Áudio. Por favor, anotem. Pegue um toca discos
analógico de boa qualidade e acrescente uma cápsula
de preferência MC. Coloque na receita duas caixas de alta
eficiência e dois amplificadores triodo single ended,
com no máximo 18 watts por canal. Acrescente 180 gramas
de vinil importado com música clássica de sua
preferência. Sente numa poltrona bastante confortável,
numa sala a média luz, ao lado da mulher amada e, pronto!
Morra de tesão!! |
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